quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Fantasmas


Um dia, quando ainda era pequena, vi um filme sobre fantasmas. Eram pessoas transparentes, sem pés, com uma expressão esquisita e dizia-se que flutuavam (embora naquela altura eu não compreendesse muito bem o que era flutuar). Apareciam, normalmente, em casas escuras com pessoas assustadas e tristes e a horas pouco convenientes. Nunca falavam, emitiam antes uns sons estranhos, "Buuuh, buuuh", faziam eles e nunca ninguém chegava a perceber muito bem o que queriam dizer com isso. Talvez fosse por isso que as pessoas fugiam, deviam ir a correr procurar um dicionário de Fantasmês-Português à Biblioteca Municipal mais próxima. Eu, pessoalmente, acho que àquelas horas as Bibliotecas não estavam abertas, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Há cada coisa mais bizarra neste mundo.

Poucos anos depois passei a ter outra noção do que era ser fantasma. Não era coisa fácil como parecia. Era preciso assustar as pessoas, fazê-las passar por coisas que as fizessem tristes e amedrontadas e isso implicava um grande trabalho de casa. Imaginem: se um fantasma tivesse umas cinco pessoas para assustar, num mês teria de as conhecer a todas para fazer bem o seu trabalho. Para acréscimo há a sincronização com a filmagem e com os efeitos de cenário, enfim, profissão de risco, talvez tão ou mais complicada que a profissão de médico ou polícia.

Já hoje, descobri que tenho uns fantasmas. Não é algo que se peça para ter, acontece como a maior parte das experiências da vida, e esta pode-se considerar desagradável. Continuam a aparecer à noite ou em alturas de solidão e em vez do tradicional “buuuh, buuuh”, apertam o coração e fazem gemer, chorar, espernear. Talvez existam em espécies diferentes, estas bichezas. Já reparei também que não têm forma física, atrevia-me até a dizer que se alojam no cérebro quando temos assuntos por resolver e crescem como minhocas, ou como outro parasita qualquer. Não sei ainda se se multiplicam, se são tipo microrganismos que precisam de umas condições específicas para sobreviver e, consequentemente, não sei como os combater. Se calhar há um antídoto no supermercado ou um neurocirurgião pode apanhá-los e extraí-los do cérebro, não sei. Também já pensei em secar a cabeça com ar quente para repeli-los, como se vê fazer aos leões na selva (Com os leões não é bem ar quente… É fogo… Mas não me pareceu muito agradável a ideia de queimar a cabeça e dada a invisibilidade das criaturas, talvez sejam apenas umas coisitas pequenas.).

Enquanto isso, quando eles fazem a sua visita diária, aperto a cabeça e o peito com muita força para não os deixar entrar nas minhas memórias e sentimentos e espero que isso resulte. Costumo adormecer ao fim de alguns minutos deste exercício. Outras vezes visto o fato de treino e corro para espantá-los. E com o vento gelado que tem estado, penso que já devo ter corrido com alguns. Tentei imaginar o lado positivo desta questão: talvez este esforço queime calorias. No entanto, acho que prefiro continuar a correr e abdicar deste e daquele muffin de chocolate em vez de ter de viver com fantasmas acoplados.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sonhos

Gostava de conseguir tocar nos dedos dos pés à primeira tentativa. De rir em que timbre quiser e de saber quando bater palmas (ou pelo menos, ter a coragem de o fazer fora de tempo).
Gostava que me fizessem cócegas até eu chorar de rir (embora eu nunca tenha rido assim tanto com cócegas) ou que me beijassem de surpresa antes de eu abrir a porta e entrar em casa (mesmo que fosse para eu afastar o atrevido, indignada e de faces vermelhas de raiva).

E gostava de poder usar calças vermelhas, cor-de-rosa e de todas as cores (como aquelas calças verdes que eu nunca uso, porque tenho vergonha de sair com elas à rua) mesmo que, invariavelmente, eu só use preto.

Gostava (mais do que isso, até) de poder ter a ilusão de poder ser domadora de leões ou bailarina quando me apetecesse, ao acordar, ser domadora de leões ou bailarina. Que os meus pais não torcessem o nariz e me dissessem: “Mas isso é lá profissão de gente!”. Que ao acordar e calçar umas sapatilhas eu fosse não outra pessoa, mas outra personagem (e que ela sorrisse para mim no espelho) e que fosse a melhor no que fazia.
E quando ela saísse à rua, com aqueles sapatinhos delicados, olhassem para ela e dissessem, com um tom de admiração: “ali vai a rapariga que acordou, decidiu ser bailarina, e nada a parou”

Gostava também de acordar no dia seguinte e ter o amor da minha vida deitado ao meu lado, simplesmente a olhar para mim (mesmo que eu me tenha babado durante o sono, mesmo assim). E que não tivesse de procurar por ele nem lutar por ele, porque ele foi feito para mim e está sempre ali, deitado ou de pé com um copo de água na mão e uns olhos de sono (os olhos mais bonitos de sono que eu já teria visto).
E que ele dissesse: “Bom dia Bailarina, ou Médica, ou Astronauta, o que decidires ser hoje. Levanta-te, veste-te, vai lá fora e sê a melhor naquilo que quiseres ser”. E eu faria exactamente o que ele me disse para fazer, porque neste mundo imaginado essa lenga-lenga não seria apenas algo que nos dizem na primária para alimentar sonhos que não são possíveis. Como quando disse que queria girar os braços e voar e me disseram que bastava ter muita vontade (Nunca consegui voar).

Gostava de escalar montanhas durante o sono, apenas para antecipar o que será escala-las acordada. E escala-las, de facto. Estar no topo no mundo, com a ponta do nariz gelado e uma mão gelada na dele (o amor da minha vida, lembram-se?). E que déssemos beijos à esquimó até os nossos narizes caírem e nos amassemos mesmo assim, desfigurados.

Que desfigurados, saíssemos à rua e olhassem para nós não porque não tínhamos narizes mas porque éramos bonitos (mesmo bonitos juntos) e apaixonados e as pessoas gostam de ver amor. No meu mundo imaginado, pelo menos.
Eu teria umas calças amarelas e ele umas que condissessem com as minhas (para alem disso, de que cor ele quisesse, porque ele seria tão livre quanto eu). Subiríamos ao monte mais alto de propósito só para vir a rebolar cá para baixo (chegaríamos cá a baixo tontos e doidos um pelo outro). E se alguém ao longe abanasse a cabeça a reprovar, seria preso por não nos deixar amar (só durante um tempo, apenas aquele necessário para ele perceber que só queria é ter um amor assim e nós o perdoarmos).

Gostava de ser ruiva (os ruivos estão em vias de extinção). Seria a ruiva mais bonita neste mundo e no outro, porque seria a única.

E quando eu andasse na rua diriam: “Ali vai a Ruiva que pode ser tudo, mesmo sem nariz e presa ao amor. Um dia vamos vê-la a girar os braços e levantar voo”

(E um dia, aconteceria isso mesmo)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Amor tem cheiro de chocolate
E sabor de cigarro.

Tem o toque quente do teu pé no meu,
Tem um sorriso de lábios magoados.

A vontade de voltar atrás só para te ver mais uma vez,
O querer viver no sonho onde te encontras.


O Amor é amar-te em segredo.


Dou-me à ilusão que quero viver.

Se pudesse dava-me a realidade que quero ter.

Inconscientemente ainda quero acreditar que podemos escrever um final feliz.

Abdicava.

Pelos beijos que desejo, pelo teu toque, pelo teu olhar.

Sim, por ti.

Nunca quis que fossemos inacabados mas sim completos.


Esqueço-me da razão embora tu não.

Perco-me e dou-te o coração que seguras por minutos e depois o abandonas.

Se to dei, se o aceitas-te,
Guarda-o.

Tem tudo o que sinto, tudo o que sonho... tem-te a ti.

Bem sei que ele pesa de tanto que vivi mas não tenhas medo,
Não o deixes no dobrar da esquina,
Leva-o contigo.

Leva-me contigo.

Porque mesmo quando me deixas ao relento,
Continuo a amar-te incondicionalmente.


Sim, eu Amo-te.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

às vezes só queria que soubesses que..

mudas o meu mundo com meia dúzia de palavras.

às vezes só queria que sonhasses que..

mudas a minha vida com um sorriso.

às vezes só queria que pensásses que..

não há nada melhor do que tu.

às vezes... quero... não, olha..

fica enquanto puderes, enquanto quiseres, enquanto, fica apenas.




contigo há um sorriso melhor.
és o melhor que tenho.

Eternamente tua @

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Gesto de Luz

Já vivi muitos abraços e sinto-me sortuda por isso. Abraço de mãe, de pai, de irmã, tia, tio, primos e avós, amigo, amiga, colega e, se calhar, também de desconhecido. Por isso, para mim, abraço é algo comum, que se dá acompanhado pelas prendas de Natal.
No entanto, existem abraços que fogem à regra. São aqueles que acendem a alma, se é que esta existe. São pontos de luz, que nos recrutam da rotina da vida e dos outros momentos mais infelizes. E esses abraços, merecem destaque.



*



Estava frio, naquela noite. Tinha o cobertor, o carapuço, mas nem mesmo o pijama forrado de algodão me aquecia o suficiente. Foi aí que um bater leve na porta me despertou do sono leve e me levou a descer as escadas. Quando o fiz ele estava lá. Independentemente das doenças, do frio ou da chuva, lá estava ele, com uma oferta pouco comum. Era o abraço. Apertou-me contra ele, como se os seus braços fossem um escudo protector e embalou-me, suavemente e da maneira correcta, como quem cura sem medicina. O calor regressou, o sono tranquilizou o momento e adormeci ali, nos seus braços, feliz como nunca tinha sido, por causa do abraço.


Becas

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Saudades.

"Tenho saudades tuas
isso eu sei porque eu sinto no meu peito essas ruas
nunca imaginei um amor assim
e agora até ficou real
mas isso trouxe coisas atrás
no momento de uma decisão percebes tudo o que o presente faz
mesmo querendo ter alguém eu quero ter-me a mim
mas meu amor
nenhum de nós deixará de ser real
passo por essas ruas
isso eu sei porque eu sinto ter ainda no meu peito coisas tuas.”

, as minhas saudades tuas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Aniversário


Uma prenda é algo que alguém não oferece a si próprio. É algo divertido ou algo caro, algo especial, ou manual. Hoje, uma prenda é um post, chamado "Aniversário".

Já há algum tempo que não se falavam. O Verão entrou e não se sabe se por falta de tempo ou porque outro motivo as letras não se tinham encontrado para formar palavras faladas. O tempo não parou, a idade fez o mesmo, mas as lembranças, as recordações essas, juntamente com a saudade, permaneceram no vazio ou no cheio do dia à dia.

*

O velho estava sentado no alpendre com o livro mais antigo que possuia. Fora seu pai quem lho oferecera um dia, quando completara 4 anos. Não tinha imagens, a capa era preta, e no início não tinha achado o livro algo de entusiasmante. Depois de ter lido a primeira palavra, tudo mudou. Lembrava-se como se fosse o próprio dia. E, talvez por querer voltar ao passado que o mantia vivo, mais uma vez, o velho pegou no livro e leu:

*

Está à tua espera. :) Feliz aniversário.
Um beijo saudoso,
Becas