
Um dia, quando ainda era pequena, vi um filme sobre fantasmas. Eram pessoas transparentes, sem pés, com uma expressão esquisita e dizia-se que flutuavam (embora naquela altura eu não compreendesse muito bem o que era flutuar). Apareciam, normalmente, em casas escuras com pessoas assustadas e tristes e a horas pouco convenientes. Nunca falavam, emitiam antes uns sons estranhos, "Buuuh, buuuh", faziam eles e nunca ninguém chegava a perceber muito bem o que queriam dizer com isso. Talvez fosse por isso que as pessoas fugiam, deviam ir a correr procurar um dicionário de Fantasmês-Português à Biblioteca Municipal mais próxima. Eu, pessoalmente, acho que àquelas horas as Bibliotecas não estavam abertas, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Há cada coisa mais bizarra neste mundo.
Poucos anos depois passei a ter outra noção do que era ser fantasma. Não era coisa fácil como parecia. Era preciso assustar as pessoas, fazê-las passar por coisas que as fizessem tristes e amedrontadas e isso implicava um grande trabalho de casa. Imaginem: se um fantasma tivesse umas cinco pessoas para assustar, num mês teria de as conhecer a todas para fazer bem o seu trabalho. Para acréscimo há a sincronização com a filmagem e com os efeitos de cenário, enfim, profissão de risco, talvez tão ou mais complicada que a profissão de médico ou polícia.
Já hoje, descobri que tenho uns fantasmas. Não é algo que se peça para ter, acontece como a maior parte das experiências da vida, e esta pode-se considerar desagradável. Continuam a aparecer à noite ou em alturas de solidão e em vez do tradicional “buuuh, buuuh”, apertam o coração e fazem gemer, chorar, espernear. Talvez existam em espécies diferentes, estas bichezas. Já reparei também que não têm forma física, atrevia-me até a dizer que se alojam no cérebro quando temos assuntos por resolver e crescem como minhocas, ou como outro parasita qualquer. Não sei ainda se se multiplicam, se são tipo microrganismos que precisam de umas condições específicas para sobreviver e, consequentemente, não sei como os combater. Se calhar há um antídoto no supermercado ou um neurocirurgião pode apanhá-los e extraí-los do cérebro, não sei. Também já pensei em secar a cabeça com ar quente para repeli-los, como se vê fazer aos leões na selva (Com os leões não é bem ar quente… É fogo… Mas não me pareceu muito agradável a ideia de queimar a cabeça e dada a invisibilidade das criaturas, talvez sejam apenas umas coisitas pequenas.).
Enquanto isso, quando eles fazem a sua visita diária, aperto a cabeça e o peito com muita força para não os deixar entrar nas minhas memórias e sentimentos e espero que isso resulte. Costumo adormecer ao fim de alguns minutos deste exercício. Outras vezes visto o fato de treino e corro para espantá-los. E com o vento gelado que tem estado, penso que já devo ter corrido com alguns. Tentei imaginar o lado positivo desta questão: talvez este esforço queime calorias. No entanto, acho que prefiro continuar a correr e abdicar deste e daquele muffin de chocolate em vez de ter de viver com fantasmas acoplados.


