
Desço a rua, e passam dezenas de pessoas por mim. Acontece, invariavelmente, questionar-me em surdina quais serão os seus nomes, aonde viverão, que profissões serão as suas, se terão maridos,esposas, filhos. Quando, mais adiante, passa um homem por mim, encontro o meu eu a pensar nas coisas mais variadas e absurdas possíveis, tais como: como seria dar-lhe um estalo e suportar as consequências de tal facanha, ou vê-lo nu. E isto acontece verdadeiramente, enquanto desço a tal rua.
O engraçado é quando eu me rio, quando passo por pessoas que não conheço e lhes sorrio. São adoráveis as expressões enigmáticas que se desenham nos seus rostos, como se se sentissem capazes de dar aquilo que têm e aquilo que não têm para saber o motivo de tanto riso. Depois também há aquelas que me devolvem o sorriso, como se o facto de me rir indicasse que pretendia obter algo em troca (aqui inquiro-me sempre: será que riem por simpatia, ou simplesmente têm um modo diferente de expressar a sua confusão perante emoções alheias?). E depois há um terceiro grupo, onde se incluem todos aqueles que passam e nem olham, porque estão atrasados para a reunião, porque têm um encontro marcado, porque até lhes podia cair a casa, que continuaram a pedir a todos para bater a porta de saída com delicadeza.
Aquilo que é genuinamente hilariante é que , contariamente ao que alguns possam pensar, eu não me rio com eles e para eles, mas sim deles. Rio-me das expressões estúpidas que fazem, do olhar de quem está perdido numa cidade muito grande, do facto de só olharem para cima para atravessar a passadeira. Monta-se todo um cenário circense, em que todos os que por mim passam são palhaços com grandes lábios encarnados e chapéus azuis, e eu a criança maravilhada e expectante.