segunda-feira, 13 de julho de 2009

A necessidade da certeza das coisas nos lugares certos, das palavras nas bocas que se repetem, das tentativas (frustradas?) de esticar os adjectivos de tudo até ao eterno.

na minha árvore, nenhuma folha é perene, são todas caducas. na minha árvore, quando chega o Inverno, e se fazem sentir ventos fortes e chuvas ácidas, as folhas caem.
Vem o jardineiro, e limpa.

sento-me à secretária, estão horas iguais à minha espera, mas algo me rouba tempo.
conversas.
como se todas as pessoas tivessem árvores maiores que a minha, e fossem de folhas perenes. como se essas mesmas pessoas tratassem das respectivas árvores todos os dias para que tais folhas nunca tocassem o chão.
é a tal tentativa de esticar todos os adjectivos numa escada até ao eterno, percebes? Vais colhendo certezas, regas a tua árvore, as folhas não caem, mais um degrau , 'mas o que é que eles esperam de mim?', mais uma certeza, 'é isto que é suposto fazer', mais um degrau, regas a tua árvore e as folhas não caem. as tuas folhas não caem, porque tu cresces e aprendes que as coisas são desta e daquela forma, e não podem ser de outra porque ninguém te vai ouvir se tu falares baixinho.

na minha árvore as folhas são caducas, caem porque são eternas apenas enquanto estão presas aos ramos. não rego a minha árvore, porque acho que os adjectivos não esticam para lá de mim. nunca chegarão ao eterno. os meus adjectivos começam e acabam em mim. gosto de passar tardes inteiras a olhar para as folhas da minha árvore, mas elas nascem e morrerm, e eu passo, como chuva.
E quando elas morrem e caem, o jardineiro varre-as.



O jardineiro está sentado por debaixo de árvores de folhas perenes também.
Nunca te esqueças disso.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

"Cace, Persiga-o em mim, é apenas em mim que ele vive. E quando o tiver na extremidade do meu fuzil, Não ouça se ele te implora. Você sabe que ele deve morrer de uma segunda morte. Então, acaba com ele... outra vez.
Chore! Eu tenho feito isso antes de você e não adiantou nada. Quão bom é os soluços (de choro) inundarem as almofadas? Eu tentei, eu tentei mas tenho o coração seco e os olhos inchados."

quarta-feira, 1 de julho de 2009

.....Eram os dois menores, mas tinham uma rebeldia maior que os passos que davam. ela era racional, inquieta e preocupada. ele era frio, era concreto, e livre.
.....O dia estava já marcado há mais de meses, e o local tinha sido escolhido a dedo. encontraram-se no sítio do costume, à hora do costume, com o amor do costume.
.....Beijaram-se como de costume.Ela riu-se, e o seu riso deixou-o mais uma vez sem palavras. Ela tinha uma expressão muito atípica, uma mistura grave de inocência e ousadia, com traços de mistério a delinear-lhe os movimentos. Seguiram os dois por aquela rua que já tanto os vira passar, que já tanto os guardara e os contara a outros casais, que como eles, ambicionavam o amor eterno.
.....Chegaram.
.....Como tudo estava igual. Ela ainda se recordava do cheiro dos livros, do brilho dos azulejos da parede da cozinha, das almofadas quentes, do espelho mentiroso.
.....Não ouviram a paixão bater à porta, e por isso não souberam controlar o desejo que os guiara. Ela tirou-lhe as roupas de que não gostava, e viu-o, e amou-o. E, por momentos, as coisas deixaram de existir, o céu ficou sem nuvens, os relógios abrandaram o seu ritmo, o mundo parou. Toda a acção e todas as sensações visiveis estavam agora presentes unica e exclusivamente naquele quarto, naquela cama, naqueles corpos.
.....E os ponteiros do relógio foram maus, e não esperaram. Enquanto desfrutavam um do outro e de todos os encantos que tinham por [se] descobrir, rezaram para que o tempo parásse.Mas não parou. Nunca pára. Os ponteiros apressados, estavam já atrasados para o grande final.

....................(Meia noite.)
.....Ele levantou-se, foi à cozinha, e trouxe de lá uma caixinha branca com inscrições. Chegou ao quarto, onde a foi encontrar deitada na cama que [lhes] vira amor, e deu-lhe um.Guardou o outro.
.....Ela nunca sorrira tão verdadeiramente, e nunca vira nele uma expressão tão natural e tão simples.Confessaram o seu amor um ao outro, num murmúrio que só eles ouviram.Beijaram-se uma última vez, engoliram-nos, e deitaram-se lado a lado.Abraçados. Numa esfera onde conservaram para si mesmos os seus últimos laivos de vida.
.....E, olhando o tecto já amarelo da humidade, pensaram o quão bonito era o seu amor.E deram o último suspiro, quando uma vaga de oxigénio já emocionado e drogado lhes trespassou os pulmões.Mas deram-no juntos, da forma mais sincronizada que sabiam, para que um não tivesse que viver um mero segundo sem o outro.



[escrito à muito tempo. no tempo em que as palavras custavam a sair. no tempo em que se escrevia aquilo que era insuportável pensar. ]