domingo, 30 de maio de 2010



Porque nós temos a intuição do tempo.

A nossa vida desenrola-se como uma sucessão de fotos tiradas por uma polaroid já ultrapassada, com curtas palavras escritas na parte posterior, como o jovem que guarda nomes na parede do quarto. Tiramos fotos a um ritmo frenético, só para que um dia quando formos velhos nos lembremos de como os nossos movimentos eram rápidos e descompassados, e caóticos, e rebeldemente vazios de significado. gostamos das polaroids porque são instantâneas, tal como é e sempre será a nossa existência. Trazemos uma polaroid connosco, a qual mais do que registar o que lhe entra pela objectiva, guarda a lembrança das cores de quem por ela espreita.
Crescemos e aprendemos a absorver a vida tal como ninguém a conhece a um ritmo alucinante, pincelando-a com cores garridas que não desbotam. Andamos a dizer às pessoas que os objectos são infinitos, que se prolongam indefinidamente até ao horizonte aonde ninguém chega, através de planos invisivéis à fraca percepção humana. Temos gritado a quem sabemos não ouvir que este real que agora conhecemos neste preciso momento, não será o mesmo no instante de consciência imediatamente posterior, pelo que reconhece-lo-emos de um modo diferente.
Que vivemos a nossa vida numa louca correria desenfreada porque queremos ver tudo, não só uma vez, em jeito de sedenta adolescência em flor, mas sim várias vezes, para que possamos ver como as coisas são na realidade. Para que com batidas de jazz as conheçamos nesta forma, e em livros de filosofia as conheçamos noutro modo, e com sombras estivais as possamos reconheçer ainda noutros moldes. Andamos nesta estrada, sem parar em casa alguma, porque queremos conhecer a realidade em si, nos seus constantes ciclos metamorfoseais.
Crescemos e aprendemos a ver o futuro em noites quentes embebidas em copos de gin, quando a manhã teima em não nascer e a noite está demasiado cansada para se fazer ainda sentir. Não nos demoramos com nada, em nenhum lugar, em nenhum sentimento mais perturbador, em nenhuma opinião mais pantanosa. A nossa boa música ensinou-nos a desenhar asas nas costas nuas, que nos tornam velozes, e os nossos pais deram-nos rodas, bicicleta sem travões numa rua com inclinação, para que nos movamos à velocidade da luz, das coisas e da vida.
E ainda há quem durma, alheio às cores e ao ritmo destas explosões.

[Para que quando chegarem o abismo e a trovoada e os céus sem estrelas e as ruas vazias, para que quando se fizerem sentir as solidões sem música, para que quando as nossas mãos tiverem rugas e a nossa casa for o nosso mundo, para que quando nos resignemos a viver e a correr atrás daquilo que é certo, nos lembremos de como um dia já fomos jovens. Nos lembremos que o mundo era a nossa rua, our bodies like playgrounds, e de como os nossos sonhos nos caíam dos bolsos a cada passo que dávamos. Para que um dia nos lembremos de como já fomos jovens. ]

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Maybe



I don't want to be the one to say goodbye
But I will, I will, I will
I don't want to sit on the pavement while you fly
But I will, I will, oh yes I will

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go
Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back to me

I don't want to be the first to let it go
But I know, I know, I know
If you have the last hands that I want to hold
Then I know I've got to let them go

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go
Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back

I still feel you on the right side of the bed
And I still feel you in the blankets pulled over my head
But I`m gonna wash away, oh I'm gonna wash away
Everything till you come home to me

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
In the future, you're gonna come back,
You're gonna come back

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go

Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back to me
You're gonna come back to me.don't want to be the one to say goodbye
But I will, I will, I will
I don't want to sit on the pavement while you fly
But I will, I will, oh yes I will

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go
Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back to me

I don't want to be the first to let it go
But I know, I know, I know
If you have the last hands that I want to hold
Then I know I've got to let them go

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go
Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back

I still feel you on the right side of the bed
And I still feel you in the blankets pulled over my head
But I`m gonna wash away, oh I'm gonna wash away
Everything till you come home to me

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
In the future, you're gonna come back,
You're gonna come back

Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back around
Maybe in the future, you're gonna come back,
You're gonna come back
The only way to really know is to really let it go

Maybe you're gonna come back, you're gonna come back,
You're gonna come back to me
You're gonna come back to me.

sábado, 15 de maio de 2010


"Para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura."








Desceram a rua, enquanto sentiam o amor a escorrer-lhes das mãos. Aquela pele, dantes impermeável, parecia agora feita de pequenos buracos que deixava o sentimento escapar-lhes antes que tivessem o tempo necessário para pensar se valia a pena guardarem tal vida nas mãos, tal amor nos corações. As palavras, bonitas ou feias (já nem se davam ao trabalho de fazer uma diferenciaçao), combinavam-se com os átomos de carbono e de oxigénio que eles exalavam pela boca, limitação insuportável do ser humano-respirar.
Já não se importavam não saberem esconder os corpos mentirosos, que tinham prometido algo eterno( introduzir aqui designação específica) naquela cama que os vira amar.
A incapacidade de ver um sorriso desconcertante também já não os preocupava, tal era o cheiro do egocentrismo que tresandava daqueles dois corpos que já nada tinham para dar um ao outro. Ela tinha reparado que ele estava diferente, mas já não se lembrava quem ele era.

Devem ter seguido por caminhos diferentes, porque um dia acharam-se ambos mortos num espelho que reflectia rostos que não os seus.

Devem-se ter amado.Digo eu.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A noite tem chegado mais cedo. eu sei que já morreste, tenho ido todos os dias á tua campa, mas agora a noite chega cedo e traz heroína com ela. não tenhas pena, eu já não construo bonecas voodoo com a minha pele, já não deixo a minha porta aberta nem me esqueço da chave de casa no teu bolso. o mar agora está finalmente calmo, nem há ondas, só as que brisas serenas trazem. agora já tenho crianças a correrem livres, e a rirem. já nem me lembro de trazer o guarda chuva na pasta, nem de o abrir.
mas às vezes ele diz-me que se eu tivesse um coração, ele seria cinzento.
alguém me emprestou guaches, eu andei a pintá-lo de vermelho. sei lá de que cor era antes, nem olhei. pintei de vermelho vivo, agora tenho um coração bonito e vermelho, e não é a fingir. mas eu (não) tenho um coração?
sei que desde que morreste, está tudo mais barulhento, mas as paredes ouvem-me as saudades dos teus silêncios. de quando não dizias nada, e eu ficava a saber tudo. de ter o teu corpo quente a respirar para a noite, de sentir a brisa que me enebriava os sentidos, de ter o teu perfume a misturar-se com os odores da cidade. tenho-te na memória em momentos recortados a picotado, lembro-me de eles estarem a falar muito, eu nem ouvi, deles a mexerem-se muito, eu nem vi, lembro-me deles a saltaram, nem senti. mas recortei e recordei a tua figura calma e imponente, discreta e serena, a olhar. riste-te e pegaste-me na mão. levaste-me não sei para onde, vamos ter com eles. já não sei para onde fomos, mas sei que me pegaste na mão, havia lá muita gente, dizias apenas vamos para ali, escolheste pegar-me na mão.

hoje sabes-me a chocolate com heroína. é bom ter-te por cá

sábado, 8 de maio de 2010

A sensação é de quem está a estagnar, de quem está parado em águas mortas, a boiar. Se o estivesse, de facto, por cima só veria um céu com muitas nuvens, tantas quanto as necessárias para nem deixar meros raios de sol enfraquecido escapar. Não gosto desta sensação. O mundo lá fora continua a rodar, as coisas continuam a acontecer, o tempo a passar. Mas eu não o sinto, é como se estivesse a andar num fuso-horário diferente do resto do mundo e não me soubesse sincronizar.

Apetece-me gritar, posso?

Acho que estou num daqueles cada vez mais raros momentos em que sinto saudades. É. E o problema nem é eu ter saudades, porque tê-las é bom, é sinal que há alguma parte de nós que ficou algures num tempo e num espaço que é tão carinhosamente recordado, e que nos dá aquele sentimento de pertença a algo, ou alguém. Mau é sentir saudades daquilo que nunca foi. Saudades de um corpo que nunca foi nosso, de um momento que não nos era destinado, de uma palavra que nunca teve significado. Isso é horrível. Achar que temos guardadas horas que pensávamos nossas, mas que afinal nos pertenciam tanto quanto ao não-sei-quê-mais-velho, vamos lá não descambar para os termos menos bonitos. E se eu tentar pôr isto de uma forma mais prática, é como ter saudades daquilo que se pensava que era, e que nunca foi, ou seja, saudades de algo que não sabemos bem o que é nem a quem pertençe.
E é nestas intermitências que me encontro. Num interregno entre nem sei bem eu o quê. Numa existência que roça a vegetativa, enquanto me limito a absorver tudo o que me rodeia por osmose, porque tudo aquilo que me poderia fazer dispender energia renego para segundo plano.

Apetece-me apanhar chuva num dia de sol, sem vozes humanas a atirar silêncios para cima de mim.



A sensação é de quem está a estagnar,
de quem está parado em águas mortas,
a
boiar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010


" Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. "

-Álvaro de Campos
(daquele senhor que agora me acolhe nas aulas de português, e que deve ser dos poucos seres que eu conheço que sabe andar ao meu ritmo.)










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Eu vou estar sempre sentada debaixo daquelas escadas, na sombra. O céu vai estar a chorar e eles vão dizer com olhos convidativos para eu ir brincar, mas eu vou continuar sempre a achar que está sol. Vou criar um tempo só meu, onde tudo se passe mais devagar que no resto do mundo, que no resto das coisas, das outras coisas. E vou chegar sempre atrasada aos encontros com a sociedade e com as coisas que vivem num tempo diferente do meu.

Por quê? - exclama ela, eu.
Porque nunca soube sincronizar nada. tenho relógios partidos espallhados pelo meu corpo e nenhum deles está certo.
Como vou chegar atrasada a sociedade não vai esperar, porque é apressada e vive as coisas futuristicamente, sempre em movimentos muito bem mecanizados e engendrados. Porventura, vou tentar chamar alguém, a ver se alguém abranda, a ver se alguém nota em mim, se alguém repara em mim. Talvez um dia haja alguém que queria andar ao mesmo ritmo que eu.

Mas voltando à ideia primordial e só para acabar, tenho a dizer que serei sempre feita da mesma merda que todos os outros, com uma diferença. Eu vou ficar sempre debaixo do vão de escadas que me esconde do mundo, e que não vos deixa ver o ser ignóbil que, por muitos sonhos e muita fome que tenha, nunca terá a força (nem a coragem) para mudar nada

domingo, 2 de maio de 2010


A foto é só em jeito de agradecimento,porque às vezes fico sem jeito. (sorrio aqui,agora).




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(o vincent disse para eu escrever, porque me iria sentir melhor. eu disse-lhe que, às vezes, não [me] sentia.)

Tu foste aquela brisa primaveril, que me despertou os sentidos. é. soubeste fazer com que eu já não precisasse de ensaiar sorrisos em frente ao espelho de cada vez que acordava e via mais uma alvorada que nada me dizia. puseste-me flores na pele e cantaste-me alguns neologismos, que eu nunca tinha ouvido, e que me fizeram ver o quão importante é o simples pormenor de estarmos vivos. A verdade é que hoje ando nos passeios e já não consigo deixar de sorrir, já não fico indiferente às folhas das árvores, e sinto que por momentos os meus pés se levantam do chão, quando ouço o brian a cantar-me dont´ go and leave me, and please don´t drive me blind.

Acho que já não me sinto tão só. E eu sei. Não és tu que estás comigo, é o meu amor (ou qualquer espécie de sentimento que me liga agora a ti.). As pessoas acham sempre que é o facto de alguém gostar delas que as faz sentir bem. Acham sempre que é a outra pessoa que trazem consigo na algibeira que as faz rir como quem é feliz, mas não. As pessoas sorriem e sentem-se no topo do mundo porque o seu amor anda sempre com elas. A sílaba tónica são elas mesmas, e não outrem.O amor delas acompanha-as e faz-lhes ver que tudo pode ser belo, se assim o quiserem.

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E agora estou deitada a ouvir o que o Brian tem para me dizer e ele está-me a perguntar what´s wrong with this picture?
E eu rio, porque lhe sei responder. Não está nada. Está tudo bem com a tela onde cantaste o nosso amor.(já sei, farei de "amor" um mero conceito com o qual tentarei definir as linhas que nos prendiam, está bem?). Está tudo bem com ele, continua na parede a sorrir-me. E quando eu quero, só me deixa lembrar que um dia já foste a minha brisa primaveril.






E já não custa tanto que Agosto tenha acabado