segunda-feira, 30 de março de 2009

Retrato




Estava no pátio de um castelo antigo, construído de emoções. As escadas eram de papel e a música começava a ser a de sempre. Fechou os olhos e ele apareceu calmamente, como se sempre tivesse existido.
Não conhecia o momento a partir do qual ele tinha começado a conhecer o barulho dos seus passos, naquele paraíso inventado, nem sabia sequer se isso o desencanta. O que sabia era que aquela intimidade lhe trazia certezas fáceis de sentir – Gostava tanto de estar ali com ele !
Não conhecia as ruas por onde ele andava, nem o autocarro que o levava de volta a casa. Não sabia a que cheirava Lisboa num maravilhoso dia de sol, nem a qual a sensação visual ao vê-lo, com a camisa desapertada, no fim de mais um dia de trabalho. Não sabia se os seus olhos mudavam de cor com a chuva, nem qual a cadeira que ele usava quando se sentava na cozinha, a jantar. Não sabia qual o nome do seu amigo mais antigo, nem qual o cheiro do seu casaco de Inverno preferido.
Para ela, ele era um homem de pés descalços, feliz e surpreso, na areia morna de numa praia numa noite de verão.
Uma fotografia, a dois, num fim de estação, ventoso e frio.
Era todas as músicas deste mundo e do outro. As palavras maravilhosas que escrevia e os dias quentes de Verão.
Era cada um dos sonhos partilhados em mais uma noite de palavras na qual as paredes daquele castelo, só deles, tomava forma.
Era o passado e o presente, sem medos.
Não o conhecia pelo que aparentava ser. Conhecia-o pelo que era.
E nunca deixou de assim ser.