A necessidade da certeza das coisas nos lugares certos, das palavras nas bocas que se repetem, das tentativas (frustradas?) de esticar os adjectivos de tudo até ao eterno.
na minha árvore, nenhuma folha é perene, são todas caducas. na minha árvore, quando chega o Inverno, e se fazem sentir ventos fortes e chuvas ácidas, as folhas caem.
Vem o jardineiro, e limpa.
sento-me à secretária, estão horas iguais à minha espera, mas algo me rouba tempo.
conversas.
como se todas as pessoas tivessem árvores maiores que a minha, e fossem de folhas perenes. como se essas mesmas pessoas tratassem das respectivas árvores todos os dias para que tais folhas nunca tocassem o chão.
é a tal tentativa de esticar todos os adjectivos numa escada até ao eterno, percebes? Vais colhendo certezas, regas a tua árvore, as folhas não caem, mais um degrau , 'mas o que é que eles esperam de mim?', mais uma certeza, 'é isto que é suposto fazer', mais um degrau, regas a tua árvore e as folhas não caem. as tuas folhas não caem, porque tu cresces e aprendes que as coisas são desta e daquela forma, e não podem ser de outra porque ninguém te vai ouvir se tu falares baixinho.
na minha árvore as folhas são caducas, caem porque são eternas apenas enquanto estão presas aos ramos. não rego a minha árvore, porque acho que os adjectivos não esticam para lá de mim. nunca chegarão ao eterno. os meus adjectivos começam e acabam em mim. gosto de passar tardes inteiras a olhar para as folhas da minha árvore, mas elas nascem e morrerm, e eu passo, como chuva.
E quando elas morrem e caem, o jardineiro varre-as.
O jardineiro está sentado por debaixo de árvores de folhas perenes também.
Nunca te esqueças disso.