quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sonhos

Gostava de conseguir tocar nos dedos dos pés à primeira tentativa. De rir em que timbre quiser e de saber quando bater palmas (ou pelo menos, ter a coragem de o fazer fora de tempo).
Gostava que me fizessem cócegas até eu chorar de rir (embora eu nunca tenha rido assim tanto com cócegas) ou que me beijassem de surpresa antes de eu abrir a porta e entrar em casa (mesmo que fosse para eu afastar o atrevido, indignada e de faces vermelhas de raiva).

E gostava de poder usar calças vermelhas, cor-de-rosa e de todas as cores (como aquelas calças verdes que eu nunca uso, porque tenho vergonha de sair com elas à rua) mesmo que, invariavelmente, eu só use preto.

Gostava (mais do que isso, até) de poder ter a ilusão de poder ser domadora de leões ou bailarina quando me apetecesse, ao acordar, ser domadora de leões ou bailarina. Que os meus pais não torcessem o nariz e me dissessem: “Mas isso é lá profissão de gente!”. Que ao acordar e calçar umas sapatilhas eu fosse não outra pessoa, mas outra personagem (e que ela sorrisse para mim no espelho) e que fosse a melhor no que fazia.
E quando ela saísse à rua, com aqueles sapatinhos delicados, olhassem para ela e dissessem, com um tom de admiração: “ali vai a rapariga que acordou, decidiu ser bailarina, e nada a parou”

Gostava também de acordar no dia seguinte e ter o amor da minha vida deitado ao meu lado, simplesmente a olhar para mim (mesmo que eu me tenha babado durante o sono, mesmo assim). E que não tivesse de procurar por ele nem lutar por ele, porque ele foi feito para mim e está sempre ali, deitado ou de pé com um copo de água na mão e uns olhos de sono (os olhos mais bonitos de sono que eu já teria visto).
E que ele dissesse: “Bom dia Bailarina, ou Médica, ou Astronauta, o que decidires ser hoje. Levanta-te, veste-te, vai lá fora e sê a melhor naquilo que quiseres ser”. E eu faria exactamente o que ele me disse para fazer, porque neste mundo imaginado essa lenga-lenga não seria apenas algo que nos dizem na primária para alimentar sonhos que não são possíveis. Como quando disse que queria girar os braços e voar e me disseram que bastava ter muita vontade (Nunca consegui voar).

Gostava de escalar montanhas durante o sono, apenas para antecipar o que será escala-las acordada. E escala-las, de facto. Estar no topo no mundo, com a ponta do nariz gelado e uma mão gelada na dele (o amor da minha vida, lembram-se?). E que déssemos beijos à esquimó até os nossos narizes caírem e nos amassemos mesmo assim, desfigurados.

Que desfigurados, saíssemos à rua e olhassem para nós não porque não tínhamos narizes mas porque éramos bonitos (mesmo bonitos juntos) e apaixonados e as pessoas gostam de ver amor. No meu mundo imaginado, pelo menos.
Eu teria umas calças amarelas e ele umas que condissessem com as minhas (para alem disso, de que cor ele quisesse, porque ele seria tão livre quanto eu). Subiríamos ao monte mais alto de propósito só para vir a rebolar cá para baixo (chegaríamos cá a baixo tontos e doidos um pelo outro). E se alguém ao longe abanasse a cabeça a reprovar, seria preso por não nos deixar amar (só durante um tempo, apenas aquele necessário para ele perceber que só queria é ter um amor assim e nós o perdoarmos).

Gostava de ser ruiva (os ruivos estão em vias de extinção). Seria a ruiva mais bonita neste mundo e no outro, porque seria a única.

E quando eu andasse na rua diriam: “Ali vai a Ruiva que pode ser tudo, mesmo sem nariz e presa ao amor. Um dia vamos vê-la a girar os braços e levantar voo”

(E um dia, aconteceria isso mesmo)