A sensação é de quem está a estagnar, de quem está parado em águas mortas, a boiar. Se o estivesse, de facto, por cima só veria um céu com muitas nuvens, tantas quanto as necessárias para nem deixar meros raios de sol enfraquecido escapar. Não gosto desta sensação. O mundo lá fora continua a rodar, as coisas continuam a acontecer, o tempo a passar. Mas eu não o sinto, é como se estivesse a andar num fuso-horário diferente do resto do mundo e não me soubesse sincronizar.
Apetece-me gritar, posso?
Acho que estou num daqueles cada vez mais raros momentos em que sinto saudades. É. E o problema nem é eu ter saudades, porque tê-las é bom, é sinal que há alguma parte de nós que ficou algures num tempo e num espaço que é tão carinhosamente recordado, e que nos dá aquele sentimento de pertença a algo, ou alguém. Mau é sentir saudades daquilo que nunca foi. Saudades de um corpo que nunca foi nosso, de um momento que não nos era destinado, de uma palavra que nunca teve significado. Isso é horrível. Achar que temos guardadas horas que pensávamos nossas, mas que afinal nos pertenciam tanto quanto ao não-sei-quê-mais-velho, vamos lá não descambar para os termos menos bonitos. E se eu tentar pôr isto de uma forma mais prática, é como ter saudades daquilo que se pensava que era, e que nunca foi, ou seja, saudades de algo que não sabemos bem o que é nem a quem pertençe.
E é nestas intermitências que me encontro. Num interregno entre nem sei bem eu o quê. Numa existência que roça a vegetativa, enquanto me limito a absorver tudo o que me rodeia por osmose, porque tudo aquilo que me poderia fazer dispender energia renego para segundo plano.
Apetece-me apanhar chuva num dia de sol, sem vozes humanas a atirar silêncios para cima de mim.
A sensação é de quem está a estagnar,
de quem está parado em águas mortas,
a
boiar.