segunda-feira, 3 de maio de 2010


" Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. "

-Álvaro de Campos
(daquele senhor que agora me acolhe nas aulas de português, e que deve ser dos poucos seres que eu conheço que sabe andar ao meu ritmo.)










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Eu vou estar sempre sentada debaixo daquelas escadas, na sombra. O céu vai estar a chorar e eles vão dizer com olhos convidativos para eu ir brincar, mas eu vou continuar sempre a achar que está sol. Vou criar um tempo só meu, onde tudo se passe mais devagar que no resto do mundo, que no resto das coisas, das outras coisas. E vou chegar sempre atrasada aos encontros com a sociedade e com as coisas que vivem num tempo diferente do meu.

Por quê? - exclama ela, eu.
Porque nunca soube sincronizar nada. tenho relógios partidos espallhados pelo meu corpo e nenhum deles está certo.
Como vou chegar atrasada a sociedade não vai esperar, porque é apressada e vive as coisas futuristicamente, sempre em movimentos muito bem mecanizados e engendrados. Porventura, vou tentar chamar alguém, a ver se alguém abranda, a ver se alguém nota em mim, se alguém repara em mim. Talvez um dia haja alguém que queria andar ao mesmo ritmo que eu.

Mas voltando à ideia primordial e só para acabar, tenho a dizer que serei sempre feita da mesma merda que todos os outros, com uma diferença. Eu vou ficar sempre debaixo do vão de escadas que me esconde do mundo, e que não vos deixa ver o ser ignóbil que, por muitos sonhos e muita fome que tenha, nunca terá a força (nem a coragem) para mudar nada