A noite tem chegado mais cedo. eu sei que já morreste, tenho ido todos os dias á tua campa, mas agora a noite chega cedo e traz heroína com ela. não tenhas pena, eu já não construo bonecas voodoo com a minha pele, já não deixo a minha porta aberta nem me esqueço da chave de casa no teu bolso. o mar agora está finalmente calmo, nem há ondas, só as que brisas serenas trazem. agora já tenho crianças a correrem livres, e a rirem. já nem me lembro de trazer o guarda chuva na pasta, nem de o abrir.
mas às vezes ele diz-me que se eu tivesse um coração, ele seria cinzento.
alguém me emprestou guaches, eu andei a pintá-lo de vermelho. sei lá de que cor era antes, nem olhei. pintei de vermelho vivo, agora tenho um coração bonito e vermelho, e não é a fingir. mas eu (não) tenho um coração?
sei que desde que morreste, está tudo mais barulhento, mas as paredes ouvem-me as saudades dos teus silêncios. de quando não dizias nada, e eu ficava a saber tudo. de ter o teu corpo quente a respirar para a noite, de sentir a brisa que me enebriava os sentidos, de ter o teu perfume a misturar-se com os odores da cidade. tenho-te na memória em momentos recortados a picotado, lembro-me de eles estarem a falar muito, eu nem ouvi, deles a mexerem-se muito, eu nem vi, lembro-me deles a saltaram, nem senti. mas recortei e recordei a tua figura calma e imponente, discreta e serena, a olhar. riste-te e pegaste-me na mão. levaste-me não sei para onde, vamos ter com eles. já não sei para onde fomos, mas sei que me pegaste na mão, havia lá muita gente, dizias apenas vamos para ali, escolheste pegar-me na mão.
hoje sabes-me a chocolate com heroína. é bom ter-te por cá