Porque nós temos a intuição do tempo.
A nossa vida desenrola-se como uma sucessão de fotos tiradas por uma polaroid já ultrapassada, com curtas palavras escritas na parte posterior, como o jovem que guarda nomes na parede do quarto. Tiramos fotos a um ritmo frenético, só para que um dia quando formos velhos nos lembremos de como os nossos movimentos eram rápidos e descompassados, e caóticos, e rebeldemente vazios de significado. gostamos das polaroids porque são instantâneas, tal como é e sempre será a nossa existência. Trazemos uma polaroid connosco, a qual mais do que registar o que lhe entra pela objectiva, guarda a lembrança das cores de quem por ela espreita.
Crescemos e aprendemos a absorver a vida tal como ninguém a conhece a um ritmo alucinante, pincelando-a com cores garridas que não desbotam. Andamos a dizer às pessoas que os objectos são infinitos, que se prolongam indefinidamente até ao horizonte aonde ninguém chega, através de planos invisivéis à fraca percepção humana. Temos gritado a quem sabemos não ouvir que este real que agora conhecemos neste preciso momento, não será o mesmo no instante de consciência imediatamente posterior, pelo que reconhece-lo-emos de um modo diferente.
Que vivemos a nossa vida numa louca correria desenfreada porque queremos ver tudo, não só uma vez, em jeito de sedenta adolescência em flor, mas sim várias vezes, para que possamos ver como as coisas são na realidade. Para que com batidas de jazz as conheçamos nesta forma, e em livros de filosofia as conheçamos noutro modo, e com sombras estivais as possamos reconheçer ainda noutros moldes. Andamos nesta estrada, sem parar em casa alguma, porque queremos conhecer a realidade em si, nos seus constantes ciclos metamorfoseais.
Crescemos e aprendemos a ver o futuro em noites quentes embebidas em copos de gin, quando a manhã teima em não nascer e a noite está demasiado cansada para se fazer ainda sentir. Não nos demoramos com nada, em nenhum lugar, em nenhum sentimento mais perturbador, em nenhuma opinião mais pantanosa. A nossa boa música ensinou-nos a desenhar asas nas costas nuas, que nos tornam velozes, e os nossos pais deram-nos rodas, bicicleta sem travões numa rua com inclinação, para que nos movamos à velocidade da luz, das coisas e da vida.
E ainda há quem durma, alheio às cores e ao ritmo destas explosões.
[Para que quando chegarem o abismo e a trovoada e os céus sem estrelas e as ruas vazias, para que quando se fizerem sentir as solidões sem música, para que quando as nossas mãos tiverem rugas e a nossa casa for o nosso mundo, para que quando nos resignemos a viver e a correr atrás daquilo que é certo, nos lembremos de como um dia já fomos jovens. Nos lembremos que o mundo era a nossa rua, our bodies like playgrounds, e de como os nossos sonhos nos caíam dos bolsos a cada passo que dávamos. Para que um dia nos lembremos de como já fomos jovens. ]