
Eram duas da tarde.
Tal como estava combinado, ela saiu de casa para ir ter com eles. Era mais um dos dias em que não havia aulas da parte da tarde, e aquele era um dia especial.
Ela ia vê-lo.
Corou.
Sentiu-se estúpida, e a sua súbita alegria pelo simples facto de o ir ver transformou-se numa espécie de nojo por si própria.
Oh, como ela gostava de se mentir. Como gostava de achar que ele tinha reparado quando ela comprara aquelas calças novas, sabendo que na realidade ele nem notara.
Chegou ao sítio combinado e já lá estavam todos.
Os seus olhos procuraram-no avidamente e, quando o viu, sentiu o seu corpo estremecer. Já estava preparada para os tremores nas pernas, e por isso não tardou a sentar-se.
E sentiu as borboletas voarem-se-lhe no estômago.
Cumprimentou todos, e quando chegou a vez de O cumprimentar tentou parecer o mais serena e descontraída possível
Ele nem notou o seu nervosismo.
E depois começaram a falar, ele a contar as novidades e ela a ouvi-lo. Não sabia o que ele estava a dizer, interessava-se só em ouvir a sua voz. E começou a ficar com calor. No seu íntimo, riu-se. Oh, ele sempre a deixara com calor. Deve ter esboçado um sorriso, e os amigos perguntaram-lhe do que se ria.
-Nada, nada. (Ele olhou para ela. Corou.)
E então, sem ninguém reparar ele pediu-lhe que viesse dar uma volta com ele.
E, mesmo sabendo o motivo da 'volta', logo se notou um brilho nos olhos dela. Ia estar a sós com ele.
-O que é que se passa?
-Nada.
-Fala comigo.
-Nada.
Agora ele tinha parado. Estava a olhar para ela com aquele olhar de irmão protector. Ela tentou fixar um ponto longe dele, tentou fugir dali, mas as pernas já não lhe obedeciam.
- Dá-me um abraço.
Ele,sem saber que aquele abraço iria despertar nela sentimentos e paixões, abraçou-a. Pôs-lhe uma mão à volta da cintura, encostou-a contra si, e deu-lhe um beijinho pequeno e doce na cara.
Ela começou a chorar. Queria sair dali, não queria ter de sentir aquilo tudo, não queria senti-lo, sabendo que não o podia tocar.
E então, foi-se desencostando dele. E ele estava tão perto... ela achou que ele conseguia mesmo ver as lágrimas a cair pela cara dela.
E, sem aviso, sem estar minimamente consciente do que estava a fazer e das repercussões que isso iria ter, ela beijou-o.
E ficaram assim durante minutos, sem que ele oferecesse resistência. E ela tocou-o, e sentiu o perfume dele e molhou-o com as suas lágrimas, e beijou-o, e disse-lhe que gostava mesmo dele.
E passado instantes, acordou.
Olhou para o relógio, e sobressaltou-se.Eram duas e um quarto.
Estava atrasada para o que havia combinado nessa tarde.