Estou a sentir-me ligeiramente molhada.
Parece chuva, mas não o é. A chuva não tem este sabor.
São lágrimas. Estão a chover-me lágrimas em cima. São tuas.
São tuas.
Mas como podem ser tuas se não sabes chorar?
Ah! Já sei. Choras de felicidade. Nunca estiveste tão bem. O teu mundo agora é preto ás bolinhas verdes, eu sei.
Eu, por aqui, vou gritando.
Vou cantando. Tentando [en]cantar-te.
E tu ouves-me. Eu sei que sim. Ouves-me mas não tomas sentido no que te grito.
Achas que te grito do fundo. É o que dá saberes-me tão bem, perceberes-me tão bem.
Eu, por cá, vou morrendo no fosso para onde me atiraste.
Mas sabes, eu sei que tu tens um problema auditivo que te reduz a capacidade de ouvir os outros.
Ouves-me mas não sabes onde estou.
E esse teu problema auditivo, ao qual eu chamo de egocentrismo, vai ser o meu maior aliado.
Porque um dia, eu vou subir uma escada paralela á tua.
[en]Cantando-te.
E vou subir, e subir, e subir.
A única diferença é que a minha escada vai ser rolante.
Porque eu já vou ter sofrido tanto, e visto tanto, e ouvido tanto, que já nada me vai deter.
E tu, como nunca sofreste nada igual, nem viste nada igual, nem ouviste nada igual, vais subir aos soluços, porque vais cair constantemente,tropeçando nos vidros que atiras para o chão antes de o pisares.
E um dia vais-te sentir molhado. Como eu me sinto agora.
E vais-te aperceber que as minhas lágrimas vão estar a chover em ti.
Porque tu conheces tudo de mim, até o sabor das minhas lágrimas.
As tais lágrimas de felicidade.
E as bolinhas verdes do teu mundo vão desaparecer.
E depois vais ser aquela cor que não é cor, que é vazia, que é opaca, e que tu vestes na perfeição.
Vais pintar um sol preto no teu céu e vais rir.
Voltaste às origens.