segunda-feira, 5 de abril de 2010
hum.
O espanto da vida, do que fomos e do que somos, agora que o tempo passa mais rápido. Tenho saudades dos dias que eram nossos, achando o futuro tão longínquo que nos olhávamos ao espelho, achando-nos iguais, sempre. Que caminho teremos nós percorrido que vem dar a esta espécie de coisa nenhuma que criamos. Lembro-me, vês, de quando te senti a respiração pela primeira vez e achei nisso beleza tamanha que não dormi a noite toda. Lembro-te no substantivo e no predicado, e acha a minha lembrança que eras maior do que te afiguras hoje, ou era eu mais pequena e vendo-te mais de perto, te tenho achado gigante entre gente pequena. Hoje somos nós gente pequena, no meio de gigantes desconhecidos, que nos mostram termos seguido caminhos errados. Entristece-me a falta de brilho nos olhos, o recreio de escola primária pública no qual os nossos corpos parecem ter-se tornado, a dor que antes era sentida e que nos lembrava que não podia estar sempre a chover e que agora parece arranhões que nem se sentem, porque vivemos a vida nesta nossa futilidade própria de quem espera morte prematura. De quando éramos pequenos e tínhamos medo de coisas que não metem medo a gente velha. Houve um dia em que veio a trovoada, e a partir desse dia sempre que chove nós nem notamos, e queremos lá saber de guarda-chuvas metafóricos que, findas as contas, nunca se revelaram mais do que isso mesmo, metáforas. Estado de luto permanente por aquilo que podia ter sido mas nunca foi, ou analgesia sentimental dada a facilidade de viver sem sentir, diz-me tu.